O sujeito não existe sozinho.
Para Lev Vygotsky, aquilo que compreendemos como propriamente humano não se desenvolve isoladamente. Nossa consciência, nossa forma de pensar e até a maneira como significamos nossas experiências são constituídas historicamente por meio das relações sociais e da cultura.
Nas Backrooms, encontramos quase o contrário disso. Há paredes, corredores, objetos e vestígios de espaços humanos, mas praticamente não há vida social. É como se permanecesse o cenário da existência humana depois que aquilo que lhe dava significado desapareceu.
O espaço continua existindo, mas perdeu sua função e seu sentido. E talvez seja exatamente por isso que ele seja tão perturbador.
Alienação: reconhecer o mundo e, ainda assim, estranhá-lo
Aqui também aparece uma aproximação importante com o conceito marxista de alienação. As Backrooms são familiares e estranhas simultaneamente. Escritórios, corredores, carpetes, lâmpadas e salas lembram espaços cotidianos, mas parecem esvaziados de finalidade.
O sujeito caminha, procura uma saída, atravessa ambientes e retorna continuamente à mesma sensação: estar em algum lugar sem verdadeiramente pertencer a ele.
A repetição infinita dos corredores pode, então, ser interpretada como uma metáfora radicalizada da própria experiência alienada: existir, repetir, continuar, sem conseguir reconhecer sentido naquilo que se faz.
Silvia Lane: toda Psicologia é também social.
É aqui que Silvia Lane se torna especialmente importante. Sua Psicologia Social rompe com a ideia de um indivíduo abstrato, separado das condições concretas nas quais vive.
O sujeito é histórico: constitui-se nas relações sociais, nas condições materiais de existência e nas contradições da sociedade da qual participa.
Por isso, diante do sofrimento, talvez a pergunta não devesse ser apenas: "O que há de errado com esse indivíduo?" Mas também: "Em quais condições esse sofrimento está sendo produzido?"
Essa mudança parece pequena, mas transforma completamente a maneira de compreender o sofrimento psicológico.
Martín-Baró e uma Psicologia que olha para a realidade.
Ignacio Martín-Baró aprofunda essa crítica ao questionar uma Psicologia que transforma problemas históricos e sociais em problemas exclusivamente individuais. Sua Psicologia da Libertação nos convida a olhar para as condições concretas que produzem determinadas formas de sofrimento.
A partir disso, podemos fazer uma provocação ao próprio filme: e se o monstro das Backrooms não for aquilo que habita seus corredores?
Talvez o verdadeiro horror esteja no próprio não-lugar. Na ausência do outro. Na impossibilidade de pertencimento. Na repetição sem finalidade. Na perda das referências que permitem ao sujeito reconhecer o mundo, e reconhecer a si mesmo dentro dele.
O horror de um mundo sem sentido.
Talvez seja justamente por isso que as Backrooms provoquem uma angústia tão particular. Elas não são completamente desconhecidas. Pelo contrário: são familiares demais.
Parecem escritórios, hospitais, escolas, hotéis e corredores pelos quais já passamos. São espaços construídos socialmente, mas esvaziados das relações que originalmente lhes davam significado.
E nisso existe algo profundamente contemporâneo. Quantas vezes habitamos espaços sem pertencermos a eles? Quantas vezes repetimos rotinas que já não conseguimos significar? Quantas vezes o sofrimento produzido por determinadas condições de existência retorna para o sujeito como se fosse apenas uma incapacidade individual de se adaptar?
Talvez The Backrooms funcione tão bem como terror justamente porque transforma essa experiência em espaço físico. Os corredores não terminam. As salas se repetem. A saída nunca parece próxima.
E o sujeito continua caminhando. Não porque saiba para onde está indo, mas porque parar também não parece uma possibilidade.
Sob uma perspectiva Sócio-Histórico-Cultural, portanto, o "não-lugar" pode ser compreendido como uma metáfora da ruptura entre sujeito, história, cultura e relações sociais. E talvez o maior terror apresentado pelo filme não seja estar preso em um lugar desconhecido.
Talvez seja permanecer indefinidamente em um mundo que já não conseguimos reconhecer como nosso.
Referências para aprofundamento
- Lev Vygotsky — constituição social da consciência e produção de sentidos;
- Silvia Lane — Psicologia Social crítica e constituição histórico-social do sujeito;
- Ignacio Martín-Baró — Hacia una Psicología de la Liberación;
- Karl Marx — Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, especialmente o conceito de alienação.
